Novidades na Asa

O autor de “Quem quer ser bilionário?”, o diplomata de carreira Vikas Swarup, tem um novo livro e virá a Lisboa nos dias 19 e 20 de Maio lançá-lo. Trata-se de “Six Suspects”, um policial mas mais do que isso, explicou Carmen Serrano a editora da Asa, na apresentação do seu catálogo para o primeiro semestre de 2010.
Outro autor, que também se dedica à escrita de policiais, é Jonh Banville (premiado com o Man Booker Prize em 2005) mas escreve-os sob o pseudónimo, Benjamin Black. No seu primeiro livro policial, “O Segredo de Christine” apresenta-nos um novo detective da ficção policial, o irascível patologista Quirke e a Asa irá publicá-lo em Março.
Outro autor britânico que está de regresso ao catálogo da Asa é Jonathan Coe, que também virá a Lisboa nos dias 19 e 20 de Abril para lançar o seu mais recente romance “A Chuva Antes de Cair”. Será também reeditado “A Casa do Sono” que há vários anos estava esgotado.
Quando “O Perfume de Adão” de Jean-Christophe Rufin (autor que recebeu o Goncourt em 2001) saiu em França o “Le Point” escreveu que lembrava os mestres Graham Greene e John Le Carré e o “Le Fígaro” que este era um romance com a inspiração de John Le Carré e os ideais de Alexis de Tocqueville. A editora da Asa lembrou que com este livro Rufin inaugurou um novo género literário, o de “thriller ecológico” e irá publicá-lo em Fevereiro.
Este mês sai a grande aposta literária da Asa para este ano: “O Regresso do Hooligan”, de Norman Mania, romeno exilado nos EUA, eterno candidato ao Nobel. “Uma vida e obra absolutamente lancinantes”, considerou Philip Roth. “É um livro de memórias que transcende o género. Uma viagem ao longo dos acontecimentos mais importantes do século XX, uma reflexão filosófica sobre o mundo e o homem”, explicou a editora portuguesa.
E em Abril, de regresso está o autor do best-seller “O Afinador de Pianos” com o seu segundo romance, “Uma Terra Distante” (que será o Brasil). E os novos livros de Paul Auster (“Sunset Park”), Bernhard Schlink (“O fim-de -semana”), Abha Dawesar (“Family Values”) e de Joanne Harris (“blueeyedboy”).
Sexta-feira pode ler no suplemento Ípsilon…

NA CAPA
Joanna Newsom já não vive no reino da fantasia
Em 2004, Joanna Newsom apareceu com uma harpa e uma voz de criança e era fascinante ver como não pertencia a este mundo. Em 2010, a música dela tem corpo de mulher e é fascinante ver como pertence a este mundo. Por Mário Lopes
O lado B da New Weird America
Em 2004, ano-chave do regresso da folk, Joanna Newsom e Devendra Banhart foram metidos no saco da “New Weird America”. O termo tinha sido inventado, porém , para designar outros artistas, vindos de todos os lados em direcção a uma meta comum: liberdade.
Purismo não, génio sim
“Senhor Galandum”, o terceiro disco dos Galandum Galundaina, encerra as dúvidas: estamos na presença de um tremendo grupo. Há menos gaitas e mais canções, a tradição suavemente deturpada, Arábias e Leão de mãos dadas. Obra-prima.
Retrato de lolita (com tirano ao fundo)
Durante anos, Laetitia Sadier foi a voz dos Stereolab e não pôde dar vazão às suas canções porque o tirano do ex-namorado queria tudo para ele. Agora, a solo, escolheu para produtor outro tirano, Richard Swift, e voltou ao indie de guitarras de há 20 anos.
Ele é a repressão. Ele é o fascismo. Ele é o Pinochet.
“Tony Manero” pode até não ser uma metáfora do regime militar de Pinochet. Mas junte-se um grupo de chilenos em Lisboa e a leitura do filme de Pablo Larraín, esta semana nas salas, não poderá ser outra. Há um passado negro a cobrir Raúl Peralta, essse imitador de John Travolta em “Febre de Sábado à Noite” e também “serial killer”.
Jonah Lehrer abre o nosso cérebro
É o menino-prodígio da divulgação científica. Editor da revista “Wired”, publicou dezenas de artigos numa das revistas mais exclusivas de ciência, a “Nature”. Do autor de “Proust era um Neurocientista” acaba de sair “Como Decidimos”. Como é que a mente humana escolhe o que fazer? Razão ou emoção?
Que seria do Rio sem Carlito Azevedo?
O escritor brasileiro Bernardo Carvalho diz que não “entende” nada de poesia mas quando recebeu “Monodrama”, livro de poesia do carioca Carlito Azevedo, ficou maravilhado. Mote para conversa sobre poetas do Rio.
“Boys will be boys”
O texto é do dramaturgo John Kolvenbach, a encenação é do realizador Marco Martins, a interpretação é dos actores Gonçalo Waddington e Nuno Lopes. Tudo bons rapazes, em “Num Dia Igual aos Outros”.
João César Monteiro deu trabalho aos artistas
O que pode o cinema de João César Monteiro levar à arte contemporânea? Que lugares e afectos partilham? Numa exposição no Convento dos Cardaes, em Lisboa, cinco artistas respondem com as suas obras. Diante de um cineasta que nos condena a ficar.
E um texto de Vítor Silva Tavares especialmente escrito para o ípsilon: “César Monteiro segundo Luiz Pacheco (comigo a reboque)”
Eles tomaram conta disto
( “Coisinha sexy”, de Ruth Marlene, passou a ser - depois da festa de lançamento do inédito de Bolaño no Bar da Praia, na Póvoa de Varzim -, o hino dos bloggers nas Correntes. Fui roubá-lo descaradamente ao blogue do irmão Lúcia)
Ciberescritas
Isabel.Coutinho@publico.pt
Se não fosse a Sara Figueiredo Costa, do blogue Caldeirão Voltaire, o que havia de ser de nós? Se não fosse o Pedro Vieira, do blogue Irmão Lúcia, a vida não tinha graça nenhuma.
Se o João Pombeiro não tivesse aqueles repentes em que lhe dá para alimentar o blogue da “Ler”, não saberíamos a quantas andamos.
Se o José Mário Silva, do Bibliotecário de Babel, não fosse pai, talvez tivesse estado todos os dias no Correntes d’Escritas a tirar boas fotografias e as que têm aparecido por aí espalhadas nos blogues não estariam desfocadas, com aquele ar de que foram tiradas com telemóveis em sítios com pouca luz.
Se o Paulo Ferreira e o Nuno Seabra Lopes não tivessem uma base de apoio em Lisboa, o blogue da edição Blogtailors não estaria, durante os dias que dura este festival literário, em constante actualização (ai, que a inveja cai sobre nós).
Se o Eduardo Pitta tivesse estado na festa no Bar da Praia, da Póvoa de Varzim, onde foi lançado o livro inédito do Bolaño, o seu relato do evento seria o “post” mais visitado do blogue Da Literatura.
Se o Luís Ricardo Duarte não tivesse um tempinho e um bloquinho para apontar tudo, o novo site do “JL- Jornal de Letras Artes e Ideias” não nos teria contado que Manuel da Silva Ramos transportava um capacete dentro da mala.
Se o Manuel Jorge Marmelo não andasse tão entretido na Póvoa, talvez o seu Teatro Anatómico tivesse tido mais histórias das Correntes d’Escritas. Mas embora sejam poucas, o blogue tem uma que vale a pena.
É que Manuel Jorge Marmelo foi protagonista de uma das cenas mais surpreendentes deste festival, num dueto entre o miúdo do Porto e Malangatana.
“Enquanto inventava uma história que espantasse a audiência”, Malangatana arranjou forma de fazer com que Marmelo acabasse por ler um dos seus poemas para o auditório a abarrotar. A seguir, o escritor português entusiasmou-se tanto que quando o pintor foi “instado a cantar a música islandesa que tinha acabado de inventar” Marmelo ofereceu-se para o acompanhar batucando na mesa.
Conta ele: “Batuquei, pois, enquanto Malangatana cantava sons guturais. Se a memória não me atraiçoar, esta há-de ser uma coisa para contar aos meus netos: o irrepetível momento em que ajudei um velho buda moçambicano a cantar para uma audiência de trezentas pessoas.”
Será que me estou a esquecer de alguém? Certamente.
Muito mudou em dez anos. O Correntes d’Escritas, festival literário de escritores de expressão ibérica, era outra coisa antes de os blogues terem tomado conta disto. E como se ouvia lá pelos cantos: “Se está na internet é porque é verdade”.
Correntes d’Escritas 2010
http://www.cm-pvarzim.pt/go/correntesdescritas/
Blogtailors-blog da edição
http://www.blogtailors.blogspot.com/
Irmão Lúcia
http://www.irmaolucia.blogspot.com/
Cadeirão Voltaire
http://cadeiraovoltaire.wordpress.com/
Da Literatura
http://daliteratura.blogspot.com/
Teatro Anatómico
http://teatro-anatomico.blogspot.com/
(Crónica publicada no suplemento Ípsilon, do jornal PÚBLICO de 5 de Março de 2010)
Casa Fernando Pessoa atribui Ordem do Desassossego a Cleonice Berardinelli e Maria Bethânia hoje no Rio de Janeiro


A Casa Fernando Pessoa organiza, hoje, na sede do Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro, às 19 horas, uma sessão de homenagem à professora Cleonice Berardinelli e à cantora Maria Bethânia, pelos “seus trabalhos em prol da divulgação da obra de Fernando Pessoa”.
A directora da Casa Fernando Pessoa, Inês Pedrosa, outorgará às homenageadas a medalha da Ordem do Desassossego, uma medalha de prata criada pela Casa Fernando Pessoa, com design de Jorge Colombo.
A sessão incluirá um debate sobre a importância de Fernando Pessoa no Brasil, com a participação das homenageadas e do poeta e filósofo Antônio Cícero, bem como a gravação vídeo de poemas de Pessoa ditos por mais de 30 figuras da cultura brasileira (Adriana Calcanhotto, Caetano Veloso, Chico Buarque, Fernanda Montenegro, Gilberto Gil, João Ubaldo Ribeiro, Luís Fernando Veríssimo, Malu Mader, Tony Bellotto, Zuenir Ventura, entre muitos outros). A semana passada o jornal “O Globo” informava que a sessão é só para convidados.
Gautherot: o jeito inédito de ver o Brasil

Marcel Gautherot, Congresso Nacional em construção, c. 1958, Brasília
© Instituto Moreira Salles

Marcel Gautherot na ilha de Marajo, Pará, c. 1970
© Instituto Moreira Salles
No ano em que se comemora o centenário do nascimento do fotógrafo francês Marcel Gautherot e os 50 anos da construção de Brasília que ele fotografou, o Instituto Moreira Salles presta-lhe homenagem. Por Isabel Coutinho (texto) e Marcel Gautherot/Instituto Moreira Salles ( fotografias)
Quando, debaixo de um sol quentíssimo, o arquitecto Augusto da Silva Telles, um dos grandes nomes do património histórico brasileiro, foi fazer uma visita de inspecção a um engenho colonial no interior do Rio de Janeiro, encontrou o fotógrafo Marcel Gautherot sentado no meio de um descampado.
Debaixo de uma sombrinha, com a máquina em cima do tripé, o francês comia calmamente uma sanduíche de mortadela. “Marcel, o que você está fazendo aqui?”, perguntou-lhe Telles. Entre “uma mordida e outra”, Gautherot apontou para o céu e disse: “Está vendo aquela nuvem ali? Quando ela estiver bem ali, eu faço a foto.”
Esta é uma das histórias que fazem parte da lenda do fotógrafo francês, que viveu e morreu no Brasil, considerado o “mestre do preto e branco”. Um homem paciente e reservado, que falava pouquíssimo nas entrevistas que deu, por vezes respondendo a resmungar, e que eternizou a utopia arquitectónica que foi a cidade de Brasília, a pedido do arquitecto Oscar Niemeyer.
No ano em que se comemora o centenário do nascimento de Marcel Gautherot (1910-1996) e também os 50 anos da construção de Brasília, o Instituto Moreira Salles (IMS) organizou o livro e a exposição Norte, comissariada pelo professor universitário Samuel Titan Jr. e pelo escritor Milton Hatoum, com as imagens das viagens do fotógrafo à Amazónia. Pode ser visitada até ao dia 21 de Março no IMS, em São Paulo, e deverá seguir para o Rio de Janeiro e para a Europa. Em Abril publicarão o livro A Brasília de Marcel Gautherot, com um ensaio do arquitecto e crítico inglês Kenneth Frampton, que terá uma edição internacional na Thames & Hudson. Na mesma altura será inaugurada no Rio de Janeiro uma exposição dedicada à maneira como a capital brasileira tem sido retratada por fotógrafos.
O acervo de Marcel Gautherot foi comprado à família pelo IMS. São 25 mil fotografias cujos negativos estão em óptimas condições. Além de ser muito metódico, o fotógrafo dedicou os últimos anos de vida a organizar e a catalogar o seu acervo. “Tem uma qualidade estética muito alta, pois ele mesmo se encarregou de descartar aquilo que achava inferior e secundário”, explica numa conversa telefónica a partir de São Paulo Samuel Titan Jr, o coordenador cultural do Instituto Moreira Salles.
Na última Feira do Livro de Frankfurt, em Outubro, Samuel apresentou à Thames & Hudson o projecto deste livro. Estava convencido que seria o projecto do IMS com mais vocação internacional. “Temos um lindo acervo fotográfico, mas sinto sempre que a primeira dificuldade é apresentar José Medeiros, Thomaz Farkas e Marcel Gautherot a um público não-brasileiro. Neste caso, Brasília serviu de isca, e, na sequência, tive que explicar quem era o Gautherot.”
A primeira explicação que Samuel deu aos editores da Hudson foi “a mais folclórica”: um francês que foge da II Guerra Mundial, se instala no Brasil e se deixa fascinar pelo país. “Esse é o lado mais fácil do apelo biográfico, mas também o lado pelo qual Gautherot não se distingue de outros estrangeiros que se apaixonaram pelo Brasil [por exemplo, os fotógrafos Pierre Verger e Jean Manzon].” Depois mostrou-lhes que Marcel Gautherot trouxe para a fotografia brasileira um olhar inspirado pela arquitectura moderna e pelo melhor do modernismo dos anos 20 e 30.
Influência do modernismo
Marcel Gautherot nasceu em Paris em 1910, numa família operária. Estudou na Escola de Artes Decorativas, onde o currículo era uma mistura de arquitectura, de arquitectura de interiores e de design. Estudava à noite e, apesar de não chegar a concluir o curso, entrou em contacto com o modernismo de Le Corbusier e de Mies van der Rohe. Empregou-se numa fábrica de “simpatias modernistas”, onde desenhava móveis, e mais tarde acabou por ir trabalhar para o Museu do Homem, também em Paris, como arquitecto de interiores. “É assim, um pouco por acidente, que ele começou a praticar fotografia a cargo do museu. De um lado, tem a vertente arquitectónica e modernista, de outro, esse lado etnográfico que aprendeu no museu.” É também por isso que, em 1936, vai ao México (a Meca dos fotógrafos e cineastas), onde conheceu o realizador russo Eisenstein.
Foi por causa de ter lido Jubiabá, de Jorge Amado, que Marcel Gautherot teve vontade de ir ao Brasil. A sua primeira grande viagem pelo país realizou-se no Norte, em 1939. Andou pela Amazónia, pelo Recife, por Belém.
“Ele chega ao Brasil e certamente se deixa fascinar, mas tem um olhar muito culto. Aquilo que vai fazer nos 50 anos seguintes não tem nada a ver com exotismo tropical”, explica Samuel Titan Jr. Na verdade, Gautherot chegou na altura em que no Rio de Janeiro se estava a organizar a geração de ouro da arquitectura brasileira: Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Burle Marx, etc. Ficou amigo deste grupo de arquitectos, mas também dos arquitectos do Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional. Isso permitiu-lhe viajar pelos lugares mais recônditos do Brasil e contactar com a paisagem e com a arte luso-brasileira.
Nas fotografias do início da sua carreira já se notava o “estilo pessoal” que apareceria em todos os temas de que se ocuparia depois. “As fotos das viagens à Amazónia em 1939, de outra, em 44, e de uma terceira, em 54/55, são surpreendentes porque já antecipavam muitos dos ângulos e efeitos que ele iria perseguir quando depois foi fotografar uma coisa radicalmente diferente como Brasília. Essa procura da composição, e sobretudo a procura da distância certa para fotografar as coisas, já estava muito presente.”
Na selva amazónica, Marcel Gautherot, em vez de tentar fugir às dificuldades - subir a árvores, fotografar de um avião ou tirar fotografias do meio do rio -, “quase sempre” recusou as soluções óbvias. Tentou trazer para as fotografias a sensação urgente de quem se sente assediado pela floresta e pela sua opressão. “Ele, em contraste com quase toda a tradição iconográfica anterior, aceitou a dificuldade como um ponto de partida do trabalho e não como um problema a ser evitado.”
Da mesma maneira, quando foi fotografar Brasília e foi confrontado com a vastidão do espaço e uma linha do horizonte claramente desenhada mas sempre muito distante (”que dá uma situação de isolamento e de fragilidade no meio daquilo tudo”), Gautherot percebeu o que havia de característico, de peculiar, num certo tipo de paisagem e partiu daí. Ao contrário de muitos dos fotógrafos que fotografaram Brasília e que tentaram o close up, o anedótico, o engraçado, o patético. Chegaram lá e “não sabiam o que fazer com essa vastidão do horizonte que é uma espécie de vazio omnipresente.”
Quando Marcel Gautherot se instalou definitivamente no Rio de Janeiro, em 1940, foi por causa do seu portfólio (com fotos de arquitectura que fez no México e em Atenas) que conseguiu trabalhar com o arquitecto paisagista Burle Marx (até aos anos 90), e com Niemeyer, que depois de Gautherot ter fotografado a Pampulha o convidou para integrar a equipa da construção de Brasília (une-os a afinidade estética - os dois são devotos de Le Corbusier - e também a questão política, o comunismo).
No acervo do fotógrafo que pertence ao Instituto Moreira Salles, 2950 das 25 mil fotografias são sobre a construção da capital brasileira. Em Brasília, Gautherot fez uma coisa que nenhum outro fotógrafo fez: fotografou a vida dos “candangos”, os operários que foram construir a cidade. Fotografou os subúrbios do plano-piloto, que anos mais tarde se transformaram nas cidades-satélites. Naquela época eram acampamentos de trabalhadores, desde vilas operárias mais ou menos bem construídas até verdadeiras “favelas” (a “sacolândia”). “Por mais simpático que Gautherot fosse à arquitectura e às ideias políticas do Niemeyer, o facto é que ele registou Brasília de um ângulo que às vezes é heróico, mas também francamente crítico. Tem alguma coisa de muito promissor, mas também de muito ameaçador, naquelas pessoas que estão reduzidas a bonequinhos numa maqueta. É impossível ver as fotos de Brasília e não sentir que aquilo tem alguma coisa de risível, de uma maqueta perdida no planalto”, afirma Samuel Titan Jr. O fotógrafo mais simpático à causa acaba por ser o que capturou a ambiguidade de Brasília como ninguém.
Uma das frustrações de Marcel Gautherot é nunca ter conseguido publicar estas fotografias. “Havia um controlo oficial tão estrito sobre o que se publicava de Brasília, havia um desejo tão ardente de fazer propaganda do país moderno, que essas fotos da vida miserável em torno de Brasília, que no fundo são já uma nuvem negra pairando sobre a utopia urbanística, nunca tiveram curso durante a vida dele.”
Sem miserabilismo
Marcel Gautherot poderia ter sido um daqueles fotógrafos que praticam uma espécie de realismo socialista na fotografia. Mas, tal como explica Samuel, a simpatia comunista foi elaborada esteticamente por ele de “um jeito muito peculiar”. Em vez de olhar para a vida popular como marcada pelo negativo (pela falta de cultura, de comida, de saúde, de dinheiro), como “uma espécie de vazio que se tem que preencher com imagens gloriosas de camponeses e operários cruzando a foice e o martelo”, ele mostra uma espécie de plenitude e de positividade na vida popular. É por isso que se interessa tanto por fotografar o trabalho, os ofícios e as festas populares. A simpatia comunista serviu-lhe para não cair no miserabilismo na fotografia.
Quando se olha para o espólio de Marcel Gautherot, que imagem é que se tem do Brasil? “A imagem de um Brasil em tremenda transformação. É um Brasil que conserva ainda todas as marcas do século XVIII e XIX. O Rio de Janeiro que Gautherot fotografou é o da belle époque, do final do século XIX, início do XX. As Minas Gerais, que fotografou, estão virtualmente no século XVIII. E é o mesmo país onde estão se erguendo a catedral de Brasília, a Pampulha, em que os arquitectos cariocas estão a construir o aterro do Flamengo. Na década de 50/60 é um país de aceleração do processo de modernização e ao mesmo tempo é o lugar onde festas populares, costumes, jeitos e trejeitos lá do fundo da vida colonial, continuam existindo.”
Fotografava com Rolleiflex. “Tinha uma herança pictórica tão forte que o fez desgostar da Leica e de todas as câmaras de disparo rápido. Ele sempre se manteve muito fiel à Rolleiflex e ao negativo quadrado, 6×6 cm. Mais clássica e que serve a esse desejo de composição que é muito forte nele. Esse tipo de escolha já mostra o tipo de fotógrafo que ele é: menos o do instante capturado do que o da composição cuidadosa.”
Marcel Gautherot, o fotógrafo que um dia disse ao seu amigo, o poeta Jacques Prévert: “No Brasil, tive vontade de derrubar uma floresta inteira para tirar o retrato de uma certa árvore de que gostei.”
(Artigo publicado no suplemento P2, do jornal PÚBLICO de 22 de Fevereiro de 2010)
Correntes d’Escritas: Todos ficam acorrentados



“Was ist das?” pergunta o leitor que marcou presença em todas as sessões do festival literário. A 11.ª edição do Correntes d”Escritas terminou sábado e fomos saber o que afinal lá se passa .Por Isabel Coutinho
Alto e pára o baile. “Mas isto aqui é os académicos a falar para os analfabetos, é?” quase grita agarrado ao microfone o senhor que se levantou da plateia. É uma das presenças constantes nas Correntes d”Escritas, cuja 11.ª edição decorreu durante quatro dias no auditório da Póvoa de Varzim. Aparece em todas as sessões e em todas pede para falar. O moderador da conferência, que já sabe o que a casa gasta, tentava pedir-lhe que fizesse uma pergunta concreta. Não conseguiu.
Acorrentado: é assim que fica quem alguma vez coloca os pés nas Correntes d”Escritas. Quem diria que um encontro literário, o único que existe há 11 anos em Portugal, que nasceu de uma ideia simples de Francisco Guedes (que agora também organiza o LEV - Encontro de Literatura em Viagem, em Matosinhos) concretizada depois de uma conversa com o vereador da Cultura da Póvoa de Varzim, Luís Diamantino, iria deixar acorrentados (para toda a vida) aqueles que por aqui passam. Um festival literário onde nos podemos cruzar e até meter conversa com gigantes e anões (e acreditem, não se trata aqui só de uma metáfora literária).
Ano após ano, desde a primeira edição em 2000, dezenas de escritores de expressão ibérica juntam-se para conversar sobre literatura. Descobrem leitores que não sabiam ter e cativam novos: pessoas que, depois de os ouvirem falar ou apresentar as obras, se precipitam para a livraria improvisada no local onde se realizam as conferências. E aturam o tal senhor que se levantou da plateia que a todos alerta no espaço aberto às perguntas do público dizendo coisas mais ao menos assim: “Que isso da literatura está bem, mas os chineses estão a comprar os títulos do tesouro americano e eu quero saber o que vamos fazer para controlar a revolução amarela. E depois há os africanos que estão a vir para a Europa e daqui a 200 anos vamos ser todos mulatos e quem é que quer isso?! Was ist das? Sim, porque desconstruir o absurdo é muito bonito, mas…” E é melhor ficarmos por aqui.
Boquiabertos
Todos os escritores, sem excepção, venham de que local do mundo vierem, ficam perplexos quando começam a trocar e-mails com Francisco Guedes e Manuela Ribeiro, os co-organizadores do encontro. Muitos não querem aceitar o convite antes de saberem qual é o tema da mesa onde se espera que participem. Manuela Ribeiro vai consecutivamente adiando o momento da revelação. E eles, entretanto, aceitam o convite. Depois chegam por e-mail os temas, muitas vezes citações de poemas ou de textos de escritores. São quebra-cabeças e deixam os participantes boquiabertos: Escrevo para desiludir com mérito, ou Passo e fico, como o universo, ou O poeta é um predador… Esta última frase é de Agustina Bessa-Luís, a homenageada desta edição a quem a revista, publicada anualmente pelo festival, é dedicada.
“Sou um predador, eu sou um predador” está a dizer valter hugo mãe sentado no palco das Correntes d” Escritas. Calhou-lhe em sorte a mesa dedicada ao O poeta é um predador. E então o escritor conta que na sua vida já andou à caça de abelhas e pirilampos, que caçou as galinhas que escapavam do galinheiro e que teve um cágado que fugiu para as heras durante dois anos. Ao levantar a careca e olhar a plateia, o autor do romance A Máquina de Fazer Espanhóis, disse: “A falta de paciência também é desgraça que chegue. Eu queria ser mais paciente, mas dá-me aquela angústia e preciso de bulir e não há nada a fazer.”
Há gente espalhada pelo chão e em pé, nem um único lugar livre. Senhoras, que se vestiram como se fossem à missa para ir ouvir escritores, riem-se às gargalhadas; o mesmo acontece a jovens com ar de terem acabado de sair da frente de um computador na Casa da Juventude ali ao lado.
“Sou um predador assim destes, à caça de amigos por mais esquisitos que os amigos possam ser, a mim já nada me parece esquisito, já cá vi cada coisa. Uma vez uma senhora tinha um buraco tremendo na parte de trás da cabeça porque levara com uma bala e a bala, se calhar mais esperta do que as outras, ao invés de a matar fez-lhe um penteado novo e eu achei que era lindo que uma bala fosse mais esperta do que as outras, e a mulher ria-se, e rimo-nos muito os dois juntos.” Mais gargalhadas.
“Eu sou um predador disto, que é sempre o mesmo. O outro lado das coisas, sem o qual a incompletude se acentua. Se for poesia, então sou poeta. Não sei ser outra coisa ou ainda não me ensinaram”, arremata e naquela sala apinhada faz-se silêncio porque se está a falar de poesia e a poesia, por estes lados, é tida em muito boa conta.
15 quilates de emoção
Quase todas as noites, no hotel da Póvoa de Varzim (que vai mudando de nome mas continua sempre igual e nunca nos desaponta) onde ficam alojados os escritores, editores e jornalistas, há sessões de poesia. Desconhecidos que sonham ser conhecidos misturam-se com conhecidos que tentam não ser reconhecidos. E há apresentações de dez livros ao mesmo tempo e todos acham que os outros não cumpriram o tempo (mínimo) de apresentação.
Nesta edição todos os louros foram para o escritor veterano Manuel da Silva Ramos (aquele que passou um ano a enviar caixões para casa do crítico literário João Gaspar Simões que tinha feito uma crítica negativa a um dos seus livros). Na sessão dedicada ao tema Literatura: o esforço inédito das palavras, Manuel da Silva Ramos colocou na cabeça um capacete amarelo e na testa uma lanterna e transfigurou-se em prospector que no outro dia apanhou uma palavra de 15 quilates de emoção. E ele que salta “da mina para a vida e pronto” foi lendo um texto e levou a plateia a passear numa mina de galeria em galeria: “É preciso ter muita imaginação, porque há gente que diz que a mina não existe.” Depois Manuel apresentou o seu mais recente romance, Três Vidas ao Espelho, e até cantou.
Quem também cantou e declamou pela noite fora foi o escritor argentino Pablo Ramos (autor de A Origem da Tristeza e que noutras vidas até chegou a dirigir um bordel), agarrado ao violão. Ouviu-se tango, Inês Pedrosa arriscou o fado de Coimbra e não faltou Grândola, Vila Morena. Corria o boato de que o escritor João Tordo não dormia há três dias e - imaginem - a escritora Mónica Marques veio do Rio de Janeiro para a festa nocturna do lançamento de O Terceiro Reich de Roberto Bolaño no Bar da Praia. Ao som do DJ Irmão Lúcia, os escritores misturaram-se com os típicos jovens poveiros que, quando começaram a ouvir Francisco José Viegas a falar em cima do palco do karaoke, soltaram vários: “Que merda é esta dos livros a esta hora?”
E a hora das conferências no Correntes d”Escritas por vezes convida ao sono. Há escritores que precisam de dormir a sesta. Há moderadores que quase adormecem enquanto moderam e há quem durma e ressone (alto) na plateia. E isso leva-nos a uma das histórias que o escritor J.J. Armas Marcelo (autor de A Ordem do Tigre), que nasceu em Las Palmas de Gran Canaria, contou nestas Correntes d”Escritas, um festival literário onde se acabam e começam muitos casamentos.
O escritor Prémio Nobel da Literatura 1989 Camilo José Cela estava um dia sentado numa das sessões plenárias do Senado quando adormeceu. Foi acordado por um outro senador, professor de Latim, que lhe chamou a atenção: “Señor Cela, está usted durmiendo?” Cela despertou e respondeu-lhe: “No, estoy dormido.” E o professor acrescentou: “Es lo mismo.” E Cela não se calou: “No. No es lo mismo estar jodiendo y estar jodido.”
O PÚBLICO esteve no Correntes d”Escritas a convite da organização.
(Reportagem publicada no caderno P2 do PÚBLICO de 1 de Março de 2010)
Vamos lá então sentir a língua roçar a língua de Luís de Camões com Caetano Veloso
Ai português, português

Os escritores Zuenir Ventura e valter hugo mãe vão estar juntos e ao vivo, hoje, às 18h30, na Bertrand do Chiado, em Lisboa, a falar sobre a nossa língua. Serão moderados por Anabela Mota Ribeiro.
Dar a volta ao texto

Ciberescritas
Isabel.Coutinho@publico.pt
Andam à nora por causa do acordo ortográfico? Na Internet já há ferramentas capazes de nos ajudarem. Uma delas é o Conversor para o Acordo Ortográfico da FLIP - Ferramentas para a Língua Portuguesa, da Priberam. É um serviço gratuito on-line, um conversor para o Acordo Ortográfico, tanto para português europeu quanto para português do Brasil.
A partir da janela disponível no ecrã, o utilizador pode digitar as palavras ou as frases (até ao limite de 3000 caracteres) que pretende converter. Pode também seleccionar a variedade de português em que estas estão escritas (Brasil ou Portugal) e visualizar as modificações propostas.
Dizem que se trata de uma versão de demonstração e que não apresenta todas as funcionalidades do conversor incluído no FLiP 7, o software que a empresa vende com ferramentas linguísticas. Mas já é uma ajuda. Avisam que os critérios do FLiP relativamente ao Acordo Ortográfico estão disponíveis para consulta e que quem quiser pode ir à secção online sobre o Acordo Ortográfico de 1990 e a sua aplicação. Aí podemos ficar a saber várias coisas sobre os ditongos, por exemplo: “Os ditongos orais, que tanto podem ser tónicos/tônicos como átonos, distribuem-se por dois grupos gráficos principais, conforme o segundo elemento do ditongo é representado por i ou u: ai, ei, éi, ui; au, eu, éu, iu, ou; braçais, caixote, deveis, eirado, farnéis (mas farneizinhos), goivo, goivar, lençóis (mas lençoizinhos)1, tafuis, uivar; cacau, cacaueiro, deu, endeusar, ilhéu (mas ilheuzito), mediu, passou, regougar.” E outras coisas mais.
Fizemos uma experiência. Fomos buscar uma crónica de Alexandre O’Neill publicada no livro “Já cá não está quem falou” da Assírio & Alvim que tem por título “Senhor conde, estarei a sumir em português de lei?” e colocámos no Conversor para o Acordo Ortográfico.
“O policiamento da língua é uma bonita actividade; a denúncia das transgressões cometidas à Sociedade de Língua Portuguesa é o cúmulo do zelo. Agora que o senhor conde chame às histórias de quadrinhos uma praga é que é insuportável. As histórias de quadrinhos têm ajudado muita gente a aprender português, senhor! Mais ainda: têm ajudado muito homem a aprender a ’ser’ português!” E lá veio o texto corrigido: “O policiamento da língua é uma bonita (actividade) atividade (…)” e por aí fora.
Está também on-line um corrector ortográfico e o corrector sintáctico (apenas com sugestões, sem explicação gramatical dos erros) para português europeu, para português do Brasil e para espanhol (em ambas as variedades da língua portuguesa é possível usar as versões com e sem o Acordo Ortográfico de 1990).
Outro dos sites imprescindíveis é o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa da equipa de José Mário Costa.
O cibernauta pode escolher no canto superior direito se quer ler o texto de acordo com a ortografia de 1945 ou de acordo com a de 1990, seleccionando a opção correspondente. O Ciberdúvidas está a publicar os textos em dupla grafia desde 15 Janeiro. Contam que o escritor José Eduardo Agualusa está a escrever um romance cuja “história passa pelos diferentes países de língua oficial portuguesa, e o pano de fundo é o Acordo Ortográfico”.
“Este Acordo dava um romance”, escrevem. Pois dava.
FLIP - Ferramentas para a Língua Portuguesa
http://www.flip.pt/
Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
http://www.ciberduvidas.com
(crónica publicada no suplemento ípsilon do jornal PÚBLICO de 26 de Fevereiro de 2010)
O Ípsilon na sexta é grátis p’ro menino e p’ra a menina!

Sexta-feira o jornal PÚBLICO é grátis. O ÍPSILON tem 72 páginas. Nos 20 anos do PÚBLICO, 20 anos de Óscares. E ainda: The Knife, Tim Burton, Johnny Depp, Toro Y Moi, Filipa César, Jimi Hendrix, Lourdes Castro, Nuno Ramos.
E como sabem a noite dos Óscares é no domingo, mas a cobertura do Ípsilon já começou há semanas, com o acompanhamento da época de prémios. Agora, a um suplemento de aniversário com um especial dedicado aos Óscares ao longo das duas últimas décadas junta-se a cobertura em directo da noite de Hollywood. E os leitores podem participar online, através do Facebook, do Twitter e do inquérito que desde quarta-feira pergunta quais as vossas apostas nas principais categorias.
Na noite de domingo para segunda-feira, jornalistas, críticos e editores do Ípsilon vão estar a acompanhar a noite e a reportar tudo o que se passa em Los Angeles. A partir das 00h, a cobertura é em directo e os leitores ficarão a conhecer os resultados do inquérito Óscares 2010, bem como acompanhar e comentar o noticiário através do Cover It Live e das contas do Ípsilon no Facebook e no Twitter.
Querem saber mais? Vão passando pelo site do Ípsilon.
Zuenir Ventura bate papo com Miguel Sousa Tavares em Lisboa

É hoje, pelas 18h30, que o escritor e jornalista brasileiro Zuenir Ventura lança o seu livro “Inveja - Mal Secreto”, que foi agora reeditado pela editora Planeta, na Casa da América Latina, em Lisboa (Av. 24 de Julho, nº118 - B). O também escritor e jornalista, Miguel Sousa Tavares, que assina o prefácio deste livro, participará na conversa.
O medo do domingo à tarde

Os contos do novo livro de Juan José Millás surpreendem sempre o leitor, que pode ficar em pânico mergulhado numa atmosfera que vagueia entre o real e o onírico.
Os Objectos Chamam-nos
Juan José Millás
(tradução de Luísa Diogo e Carlos Torres)
Planeta, € 17,5
4 estrelas e meia
Os editores evitam publicar livros de contos porque estes não funcionam tão bem em termos de vendas. O conto não tem a mesma consideração social que o romance. No entanto Juan José Millás não se tem deixado vencer. Luta contra essa ideia de que já que se gasta 20 euros num livro, é melhor gastá-los num romance do que em contos. Considera que, por esse critério, Borges desapareceria da História da literatura bem como autores como Juan Rulfo. E é por isso que participa num programa de rádio em que se pede aos ouvintes que enviem contos de cinco linhas. Não há muito tempo Millás propôs que fizessem contos de terror e chegou uma obra-prima, um conto de uma linha escrito por um rapaz muito jovem: “Fecha os olhos. Tudo o que vês é meu.”
Em Portugal já estava editado “Contos de Adúlteros Desorientados” (Temas & Debates) e surge agora “Os Objectos Chamam-nos”. Nesta obra estão reunidos 75 contos divididos em duas partes: as origens e a vida. Na primeira parte, a maioria das personagens são crianças, adolescentes e vivem rodeados de pais, tios e irmãos. Na segunda, são adultas, solitárias, com casamentos em perigo, obcecadas. Todas com a mesma atitude de perplexidade perante a vida. Fechadas em espaços e vidas claustrofóbicas de que a única forma de escapar é a fantasia. Quem leu os livros anteriores de Millás editados em Portugal na Temas & Debates (os romances “Assim era a Solidão”, “Tonto, Morto, Bastardo e Invisível”, “A Ordem Alfabética”, “Duas Mulheres em Praga”), na Quetzal (”Laura e Júlio”), na Presença (”A Desordem do Teu Nome”) e na Planeta (”O Mundo”) revê agora todo o seu universo.
É como se as suas obsessões literárias (identidade, assimetrias, psicanálise, as misteriosas ligações entre as coisas) estivessem concentradas, depuradas. Cada um destes contos é uma pequena obra-prima. Lidos no seu conjunto, mexem com o leitor, que se vê levado para um mundo onde o fantástico se mistura com o quotidiano. Perturbam e podem até levar a uma leve depressão se forem lidos a eito. Quando contámos isto a Millás, ele percebeu. “É como se todas as histórias acontecessem a um domingo à tarde. Por isso ficaste deprimida. É como se se passassem todos sempre ao domingo à tarde.” Ai o medo que todos sentimos nos domingos à tarde…
(crítica publicada no suplemento Ípsilon do jornal PÚBLICO de 12 de Fevereiro de 2010)
Juan José Millás na cidade dos homenzinhos

Recebeu o Ípsilon numa caverna de Ali Babá: o sotão da sua casa em Madrid. É aí que o espanhol fantasia, constrói personagens perplexas perante o quotidiano. Conversa sobre “Os Objectos Chamam-nos”, livro de contos Por Isabel Coutinho, em Madrid
É num bairro residencial de Madrid, no sótão da sua casa onde se chega depois de subir vários degraus estreitos, que o espanhol Juan José Millás trabalha. Ali é o seu território cheio de pilhas de livros e jornais.
Quando se senta no sofá, é ao pé do candeeiro antigo que lê com as pernas estendidas. Os mais recentes livros de Lorrie Moore e Patrícia Cornwell estão abandonados na poltrona do autor do romance autobiográfico “O Mundo”, junto a obras de colegas espanhóis. Na sala ao lado está o computador de onde saiu há pouco o romance “Lo que se de los hombrecillos”, que será publicado em Espanha em Setembro. Pelas paredes, fotografias coabitam com lagartixas de vários materiais. Por lá andam também colecções de insectos, chapas de santinhos em metal e pedras que parecem dedos (com unhas bem definidas).
“O que mais me encanta na natureza é como ela produz dedos. Dou-me conta que é o que mais produz…”, vai dizendo o jornalista e cronista (do “El País” e de outros meios), que recebeu o Prémio Don Quijote de Periodismo. Entretanto desencanta de cima da secretária pedra atrás de pedra, cada uma mais perfeita do que a anterior.
Não é por acaso, percebe-se ao entrar nesta caverna de Ali Babá, que chamou ao seu mais recente livro “Os Objectos Chamam-nos” (ed. Planeta). É um livro de contos em que as personagens se movem no mesmo bairro onde se moviam as de “O Mundo”, o madrileno Prosperidad e a sua Rua Canillas. [ver Ípsilon de 20 de Fevereiro de 2009]
“É um bairro onde fiquei preso, de alguma maneira. Passei muitas horas da minha infância, ali, naquela rua, jogando, brincando. De algum modo perdi-me ali e ali continuo.”
O fantástico no quotidiano
Como muitos escritores num momento da sua vida José Juan Millás, 64 anos, pensou na possibilidade de construir um território mítico, tal como o de William Faulkner ou de Juan Carlos Onetti. Até que se deu conta que esse território era Madrid.
“É um lugar muito plástico, muito maleável. Pode-se fazer com Madrid o que se quiser que ninguém nos dirá nada. Invento ruas e nunca me chamam a atenção. Se o tivesse feito com Barcelona ou com qualquer outra cidade, nunca mo teriam permitido. Madrid é inexistente: uma cidade em que todos vieram de fora e ninguém pergunta de onde somos. Dei-me conta que Madrid tinha as características de um território mítico e passei a utilizá-la como o meu próprio território.”
É um mistério mas Millás sonhou com “Os Objectos Chamam-nos”, livro onde reuniu 75 contos. Nesse sonho associou urbanismo e literatura. O mais certo é que tivesse acabado de chegar de Córdova ou de Milão, cidades com centros históricos fascinantes.
“Sonhei que conseguia escrever um livro de contos em que estes se relacionavam entre si, como as ruas da parte antiga de uma cidade europeia. Sempre gostei de me perder nesses centros históricos labirínticos, cheios de surpresas, que nos conduzem sempre a um ponto de saída.”
Imaginou um livro em que os contos fossem como ruas que se cruzam; em que se chega ao fim de uma viela e se tem a surpresa de encontrar outra, que parece igual mas é diferente. Esse conjunto de ruas seria como um mapa da sua infância.
Por isso foi, ao longo de anos, guardando dentro de uma pasta contos que considerava estarem nesse registo. Para os seleccionar obedecia ao seu olfacto.
“De vez em quando, plaff! aparecia-me uma ideia e escrevia. Queria fazer contos breves. Interessa-me a economia da linguagem. O meu sonho é fazer um romance e uma crónica de jornal onde não sobre, nem falte uma só palavra. Estes contos foram um campo de experimentação nesse sentido.”
Passados oito anos foi lê-los e ficou surpreendido. Achou-os divididos em duas partes: as origens e a vida. Uma de juventude, infância e adolescência, e outra de maturidade. Reparou num dado curioso: os protagonistas da segunda parte eram os mesmos da primeira parte, só que adultos. Tinham a mesma perplexidade perante a vida.
A determinada altura, chegou a pensar se o protagonista não seria sempre o mesmo. “Decidi que não. Mas em última instância, apesar de as personagens dos contos serem sempre distintos acabam por ser sempre os mesmos. O que me fascinava é que todos os contos fossem o mesmo e, ao mesmo tempo, diferentes.”
Os contos de “Os Objectos Chamam-nos” são atravessados por crianças que vão pela rua a dar pontapés nas pedras e vêem mulheres dentro de bolhas com paredes invisíveis; jovens que reparam em círculos de suor debaixo das axilas dos manequins nas montras; mães que gostam de histórias de homenzinhos que cabem na palma da mão e que não se casam com mulheres do mesmo tamanho porque estão “apaixonados pelas mulheres grandes”. Mortos-vivos, obsessões por roupa interior feminina, pactos com o Diabo e escritores que encontram raparigas com livros de Paulo Coelho debaixo do braço, para quem o mundo está cheio de sinais. Coxos que não sabiam que eram coxos, médicos que acham que não têm dedos, taxistas para quem na rádio só se dizem parvoíces e passageiros de comboio que se arrependem de tudo, seja lá do que for.
“A perplexidade destas personagens está em não entenderem a vida. Fazem esforços para parecer que entendem, dissimulam como se entendessem. São personagens que são marcianos, como se os tivessem colocado na Terra, onde têm que imitar os movimentos e as formas das pessoas para que não se perceba que são marcianos. Vivem permanentemente perante a ameaça de que os descubram.”
Ao autor de “Laura e Júlio” (ed. Quetzal) sempre interessou trabalhar a assimetria. Nestes contos volta a ela. “A assimetria produz muita estranheza e a estranheza produz saber. Quando vemos tudo no seu lugar, não nos diz nada. Se estivermos numa esplanada a tomar um copo, passa muita gente e não olhamos. Se passar um coxo, reparamos. Tomamos atenção. No entanto, é como todos os outros, mas olhamos para ele. Gosto muito de tudo aquilo que é capaz de provocar estranheza porque é um modo de encontrar o fantástico no quotidiano. Estes contos acontecem sempre em atmosferas muito domésticas, muito familiares, muito quotidianas, onde sem dúvida existe um grande mistério.”
Apesar de se passarem nestes contos coisas que são pura fantasia, a sensação que o leitor tem é que tudo é possível. “É tudo possível, claro”, contrapõe Millás. “Nós, os escritores, trabalhamos com a fantasia e com a realidade, misturamos. Essa mistura é o que produz o desconcerto no leitor. Achamos que no quotidiano não podem acontecer coisas fantásticas e a vida está cheia de coisas fantásticas. Digo mais: o fantástico acontece na vida quotidiana.”
“Os manequins não suam”, dizemos enquanto fixamos os olhos do escritor por trás dos óculos. “Bem, isso ainda está por demonstrar”, responde imediatamente [risos] “Eu vi quando era pequeno um manequim suar por isso o conto. Diz que não suam, mas eu vi. Quando ia para o colégio o manequim estava limpo. Quando vinha do colégio o manequim tinha um pouco de suor debaixo da axila. Escrevi o conto porque me aconteceu. Há neste livro contos autobiográficos.”
Os espaços fechados
Achámos melhor não insistir. E a conversa divagou para os taxistas que povoam alguns contos do livro. Millás foi, um dia, fazer uma reportagem a Múrcia. Apanhou um táxi e pediu ao taxista para lhe mostrar a cidade. “Ele ligou o carro, arrancou, brummm, parou e disse: ‘Aqui vive o meu cunhado.’ Seguiu, brummm, parou: ‘Aqui fica El Corte Inglés.’ De repente passámos por uma fachada barroca, muito bonita e ele seguiu. Eu perguntei-lhe: ‘O que era isso?’. Ele respondeu: ‘Bah, um museu.’”
Muitos dos contos de “Os Objectos Chamam-nos” são conversas com taxistas. “O táxi é um espaço fechado onde estão duas pessoas que não se conhecem e que não vão voltar a encontrar-se. Estão numa posição estranhíssima: um está sentado de costas e fala para quem está atrás através de um espelho. Não há situação mais estranha do que isso. Alguém que se dirige a nós através de um espelho. Claro que se nos pomos a pensar nisto é uma situação tão rara que merece ser explorada.”
Está tudo ligado
Num dos contos surge a referência a um tal Pierre Clausaut que terá escrito “Os objectos me chamam”. Numa crónica no “El País”, em 2001, Millás já se referia a ele. Pierre existe? “Inventei-o, pareceu-me que soava bem, a escritor francês.”
A obra de Millás está cheia destas coisas. Cenas ou pormenores que passam de uns livros para os outros. “Não é consciente. Não me lembrava de ter colocado Pierre Clausaut nessa outra história publicada no ‘El País’. Costumo esquecer-me das coisas que escrevo e às vezes aparecem de novo porque as esqueci.”
As personagens passam muito tempo dentro de casa, sempre em sítios fechados. “Sempre disse - e foi algo que elaborei posteriormente - que os espaços físicos dos meus romances e contos se convertem num território moral. A atmosfera dessas casas onde as personagens se movem, desses táxis, desses lugares fechados, dão ao relato uma atmosfera moral que me satisfaz. Quero com isto dizer que esses espaços são uma metáfora de um espaço moral. Enquanto fechados, asfixiantes, representam um olhar de carácter filosófico ou moral sobre a realidade.”
A meio da conversa naquele sótão, depois do café, de conversas sobre sapatos MBT que imitam o andar dos masai e o escritor não tira dos pés, depois de Millás ter andado à procura de alguns dos seus livros e exclamar que estes lhe vão desaparecendo das estantes, voltámos às personagens, espanholas, muito locais, mas com uma universalidade que levam leitores de todo o mundo a acreditar que aquilo lhes podia acontecer.
“Creio que o universal é o local. Falo de coisas que são próximas de mim e portanto próximas de todo o mundo. Porque somos muito parecidos. Se falamos com sinceridade e honestidade das nossas obsessões ligamo-nos às obsessões dos outros. Com o passar dos anos dou-me conta que cada vez mais nos parecemos uns com os outros e por isso tentamos ser originais. Por isso, um dos temas recorrentes da minha obra é a identidade.”
Quando terminou “O Mundo”, Millás não sabia se ia conseguir escrever outro romance mas acaba de entregar ao seu editor espanhol “O que sei dos homenzinhos”. A personagem principal é um catedrático de Economia que se acaba de jubilar. A mulher ainda trabalha, é reitora na Universidade. Ele, em casa, escreve artigos de Economia para um jornal. E vê homenzinhos. “Homenzinhos que gostam das mulheres grandes?”, perguntámos. “Bem, por aí. Tudo se liga. São como vielas que formam um mapa, uma cidade.”
Quando olha para essa cidade, para a sua obra, vê-a muito unitária. “Quando se vê a obra de um autor com uma certa perspectiva damo-nos conta que é um erro falar de obras menores. Por vezes as obras menores foram fundamentais para uma escrever uma obra maior. Quando se vê em perspectiva a obra de um autor forma um puzzle. E cada romance ou cada conto é uma peça. Se tiramos um romance porque pensamos que é menos importante, o puzzle fica incompleto. Há autores cuja obra é mais coerente do que em outros, no meu caso, na minha obra está tudo entrelaçado. Há mensagens dirigidas de uns romances para os outros, acho que é uma obra muito unitária.”
“O Mundo” (Prémio Planeta 2007, Prémio Nacional de Narrativa 2008) é um dos dez finalistas do Prémio Literário Casino da Póvoa a ser atribuído dia 24 no encontro literário Correntes d’Escritas. Como vê este romance na sua obra? “Vejo como um objecto nuclear, faz parte do núcleo da minha obra. Nunca pensei que isso acontecesse. Podem começar a ler-me por aí.”
O PÚBLICO viajou a convite da editora Planeta.
(entrevista publicada no suplemento Ípsilon de 12 de Fevereiro de 2010)
Pé ante pé

Ciberescritas
Isabel.Coutinho@publico.pt
Quando Alex Castro “colocou um ponto final” no romance “Mulher de um Homem Só” decidiu abrir um blogue onde disponibilizou o livro para “download”. Era o mês de Julho de 2002 e quatro anos depois, em 2006, o ficheiro tinha sido descarregado trinta mil vezes.
Nessa altura, conta o carioca Alex (que actualmente vive nos Estados Unidos, em Nova Orleães, onde dá aulas de português) muita “gente boa e experiente” o avisou de que estaria “queimando” o futuro daquela obra: “nenhuma editora se iria interessar por um romance que já tinha sido tão baixado”.
“Mulher de um Homem Só” conta a história de dois amigos de infância, Júlia e de Murilo. Este, quando ainda está na faculdade, casa com Carla. É ela a narradora do livro e é através dela que entramos na vida dos três. Murilo é médico, Carla é dentista e Júlia, artista plástica, passa o tempo todo a pairar pela vida do casal. Por lá passam também fetiches por pés.
Esta história apaixonou Ana Maria Santeiro que achou que poderia como agente literária vender este livro - sobre qual o papel que a melhor amiga de um marido pode ter num casamento ou sobre uma mulher apaixonada/obcecada por outra - a uma editora brasileira. Perante a possibilidade de publicação através de meios tradicionais Alex Castro acabou com o “download” do seu livro.
Ana Maria Santeiro foi então falar com várias editoras. “O resultado foi zero. Rocco, Língua Geral e Objetiva enviaram cartinhas simpáticas e bem-educadas; a maioria me deixou de molho por meses, algumas por anos, e não tiveram a gentileza de dizer não. A culpa não foi dos 30 mil ‘downloads’, pois eles não chegaram jamais a ser mencionados”, conta Alex Castro no seu blogue [Liberal, Libertário Libertino] e no posfácio da edição impressa do seu livro. “Em minha fantasia, quatro anos na Internet, blogue conhecido, coluna semanal em jornal diário [Tribuna da Imprensa], milhares de leitores cativos e dezenas de milhares de ‘downloads’ seriam suficientes para chamar a atenção do mundo editorial, cultural e jornalístico.” Não foram.
O ano passado, Alex Castro achou que tinha chegado a hora de “Mulher de um Homem Só” e lembrou-se de recorrer a velho método de publicação. Resolveu pedir a amigos e a desconhecidos que se tornassem mecenas e comprassem exemplares da obra antes da sua impressão.
Colocou então o livro à venda no “site”. Ainda não tinham passado dois dias e já tinha dinheiro para imprimir 50 exemplares. “O valor do livro foi deixado em aberto e cada mecenas deu o que considerou justo. A primeira edição de 200 exemplares de ‘Mulher de um Homem Só’ é numerada e os mecenas que contribuíram com os maiores valores receberam os menores números”, explica.
Durante três semanas, entre o início das vendas e a impressão do livro pela editora Os Viralata, 107 pessoas “abriram as suas carteiras para financiar um romance brasileiro completamente independente. Esses ilustres anónimos, que não eram nem meus parentes nem amigos, confiaram em um autor que não conheciam, vendendo um livro que nem existia, que nem capa possuía ainda.” A capa foi discutida com os leitores que ajudaram o autor na escolha.
Por estes dias o “Mulher de Um Homem Só” está a ser traduzido para espanhol, está disponível gratuitamente através do Google Books, pode ser comprado para ser lido no Kindle da Amazon (em versão Kindle, mas para já só para quem vive nos Estados Unidos), pode ser lido no Sony Reader e em outros e-books readers (em versão PDF, peçam ao autor que ele envia), está à venda em algumas livrarias do Rio de Janeiro e se São Paulo (“onde você pode comprar o livro à moda antiga”). E a história chegou ao fim, pé ante pé.
Liberal, Libertário Libertino
http://www.interney.net/blogs/lll/
http://www.sobresites.com/alexcastro/
(Crónica publicada no suplemento Ípsilon do jornal PÚBLICO de 19 de Fevereiro de 2010)




