O escritor que fica entre a noite e o dia

(Foto de Luciana Prezia)
O artista plástico e escritor brasileiro Nuno Ramos recebeu o Prémio PT de Literatura. É filho de um intelectual português que se exilou no Brasil no tempo da ditadura. O seu romance, Ó, mostra a aposta do júri na renovação da literatura
Por Isabel Coutinho, em São Paulo
Nuno Ramos, cujo pai era um intelectual português exilado por causa do salazarismo, ficou surpreso quando ouviu o seu nome como vencedor do Prémio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa 2009, que decorreu terça-feira à noite na Casa Fasano, em São Paulo. O prémio, no valor de 100 mil reais (39 mil euros), foi para o seu primeiro romance Ó.
O escritor brasileiro, que é também um dos mais conhecidos artistas plásticos do país e que, no ano passado, fez a sua primeira exposição individual em Lisboa (Fodasefoice na Galeria Fortes Vilaça), sabe que este seu livro sai fora das normas. Desde um capítulo onde escreve que “ama uma mulher a ponto de querer costurar a aliança no dedo”, a um outro onde faz uma ode aos “vira-latas” ou reflecte sobre a existência medíocre das galinhas, Ó encaixa-se naqueles romances inclassificáveis. Mas nas conversas entre jornalistas e críticos literários brasileiros era evidente que, apesar de ser um livro híbrido – entre o conto, a poesia e a reflexão – , se encontrava entre os favoritos.
O romance Ó poderia ter paralelo com aquela hora do dia, o lusco-fusco, em que não é dia nem noite. Nuno Ramos adorava perguntar aos seus filhos: “Agora é noite ou é dia?”, falar-lhes desse lugar que “ainda não é uma coisa nem outra”.
É essa a marca desta sua obra e o mesmo acontece no seu trabalho nas artes plásticas. Durante muito tempo, Nuno Ramos usou como material a vaselina, que “não é nem sólida nem líquida”, como ele explicou num hotel de São Paulo, na manhã seguinte à cerimónia.
Há uma particularidade na sua biografia. O seu pai, Vítor Ramos, era português, anti-salazarista, ligado ao Partido Comunista. Exilou-se primeiro em Paris, onde conheceu a mãe de Nuno, depois no Brasil, onde era professor de literatura e onde Nuno nasceu. “O curioso é que o aniversário dele era no 25 de Abril e em 1974 recebeu o presente pelo telefone de que tinha acontecido a Revolução dos Cravos. Mas uma semana depois teve um aneurisma e morreu.”
Portugueses finalistas
Foi a primeira vez na história das sete edições deste prémio – que além de ser monetariamente interessante, tem prestígio – que a lista dos dez finalistas integrou quatro obras de escritores portugueses: António Lobo Antunes, Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto e Inês Pedrosa. No entanto, nenhum deles ficou entre os três primeiros lugares e a desilusão era visível.
A obra de Gonçalo M. Tavares ficou em quarto lugar. Uma das razões para o seu romance Aprender a Rezar na Era da Técnica não estar entre os vencedores é o facto de fazer parte da tetralogia O Reino, a que também pertence Jerusalém – que já tinha recebido este prémio em 2007.
O escritor gaúcho e veterano João Gilberto Noll, com o romance Acenos e Afagos, onde se respira sexo, ficou em segundo lugar e embora estivesse ausente da cerimónia (por não conseguir aguentar a emoção) receberá um prémio de 30 mil reais (11 mil e setecentos euros).
Em terceiro lugar ficou o autor de banda desenhada, actor e argumentista de cinema Lourenço Mutarelli, com A Arte de Produzir Efeito sem Causa, um romance que deve muito a William S. Burroughs, tem como personagem principal um homem com algo de esquizofrénico e irá ser publicado em Portugal pela Quetzal no próximo ano. O autor recebeu 15 mil reais (5800 euros). Todos eles são romances radicais.
“Paixão original”
Às vezes, a vida leva as pessoas a serem aquilo para o qual nunca se treinaram. O paulista Nuno Ramos, de 48 anos, sempre quis ser escritor e estudou filosofia. Mas o reconhecimento veio-lhe pelo seu trabalho de escultor, pintor e ilustrador. Começou a pintar em 1983 e, no ano seguinte, fundou o atelier Casa 7. Representou o Brasil na Bienal de Veneza de 1995 e participou por várias vezes na Bienal Internacional de São Paulo. Venceu, em 2000, o concurso realizado em Buenos Aires para a construção de um monumento em memória dos desaparecidos durante a ditadura militar argentina e em 2007 recebeu o Grand Award da Barnett Newman Foundation, pelo conjunto da sua obra como artista plástico.
“A minha paixão original era ser escritor. Ainda adolescente sempre senti que alguma coisa me fugia e que as artes plásticas me deram – até por ser um corpo fora de mim. O sopro da literatura para mim era tão forte que me escapava”, explica.
Mas acabou por publicar, em 1993, o livro de fragmentos Cujo. Seguiu-se o livro-objecto Balada (em 1995) e o livro de contos O Pão do Corvo (em 2001). Todos tiveram tiragens muito pequenas. Ó é de 2008, tal como todos os concorrentes a este prémio.
“A literatura que eu faço tem dificuldades próprias. Por exemplo, acho que tenho muita dificuldade em narrar. Como se quando eu narro, eu sentisse que ficou banal quando a literatura serve alguma coisa. Tenho um amigo que me falava: ‘Nuno, do jeito que você escreve ninguém pode dizer bom dia’. Ninguém pode fazer nada, como se tivesse a palavra quase que tomar o lugar daquilo que ela está narrando.”
Nuno Ramos vê Ó como um impulso ensaístico (à Montaigne), como se estivesse a fazer “falsos ensaios sobre graves questões”. E fica espantado por as pessoas gostarem tanto da obra. “É uma coisa estranha para mim. Gente que lê em voz alta o livro, que fala para mim: “Lê em voz alta”. É uma coisa esquisita isso. Mas acho que ele passa um certo desejo de literatura. Um pouco desconectado de qualquer coisa, um desejo de texto. É isso que pega um pouco as pessoas.”
Na opinião de uma das curadoras do prémio, Selma Caetano, a escolha do júri revela a importância que foi dada à renovação da literatura e à interdisciplinaridade das artes. Mais de 500 livros publicados no Brasil em 2008 em língua portuguesa participaram nesta edição do prémio literário. Desses doze eram de escritores portugueses e depois das várias fases de selecção quatro destes livros entraram na lista dos dez candidatos finais. O que já foi inédito na história do prémio.
*A jornalista viajou a convite da Portugal Telecom
(texto publicado no caderno P2 do PÚBLICO no dia 12 de Novembro de 2009)



