O outro lado de Dennis Lehane

(Fui desencantar isto no meu baú. Entretanto “The Given Day” foi publicado em Portugal, pela editora Gótica, com o título “Terra de Sonhos”)
Quem conhece os seus universos sombrios pensará que o homem é incapaz de sentido de humor. Desenganem-se: é mordaz, consigo e com os outros. O autor de “Terra dos Sonhos” faz rir quem o ouve. Por Isabel Coutinho, em Los Angeles
Dennis Lehane passou os últimos cinco anos a trabalhar em “The Given Day”, livro que saiu em Setembro nos EUA e está agora nas livrarias portuguesas com o título “Terra dos Sonhos” (ed. Gótica). Só a investigação ocupou-lhe um ano. Mudou o registo que o tornou conhecido, o dos “thrillers” psicológicos como “Mystic River”, “Prenúncio de Chuva” ou “Gone, Baby, Gone”, e abandonou a dupla de detectives de Boston, Patrick Kenzie e Angie Gennaro, enfim, aquilo que deixa o leitor preso das primeiras às últimas páginas dos seus livros, com personagens psicologicamente perturbantes e ambientes que sufocam.
“Shutter Island”, o seu penúltimo romance, que se passava numa instituição psiquiátrica, já era uma tentativa de se afastar do seu universo.
Nesse livro quis homenagear o género “gótico, os filmes de série B e a ficção pulp”. Agora aventurou-se pelo romance histórico, mas não deixou de lado aquilo que sempre interessou na sua obra: Boston e o proletariado.
É filho de imigrantes irlandeses e cresceu em Dorchester, bairro onde conviviam italianos, irlandeses e polacos e que hoje é habitado por quem veio do Vietname e do Cambodja.
Sabe o que é ser pobre. Só aos 30 anos conseguiu comprar um livro de capa dura, disse em Los Angeles na Book Expo America (BEA).
Uma branca, outra negra
“Terra dos Sonhos” passa-se em Boston, final da I Guerra, e conta a história de duas famílias -uma branca e outra negra. O centro da história é a greve da Polícia de Boston, em Setembro de 1919. A história é contada de dois pontos de vista, o das duas famílias.
Mistura ficção com personagens reais.
Uma das coisas mais difíceis foi ter duas personagens, uma branca e outra negra, que no início nem se encontram. “O difícil foi fazer com que os seus passados se cruzassem e conseguir que o narrador convencesse o leitor de que era provável que eles se encontrassem e que os leitores não sentissem que estavam a ler dois livros”, explicou quando promovia o livro na BEA e deu uma entrevista ao Authors Studio, o podcast da BEA.
Lehane explicou que quando se é um miúdo que cresceu em Boston não se pode escapar à história da greve de 1919. Pode não se saber a data exacta mas sabe-se que aconteceu.
Quando começou a pesquisar, ficou fascinado quando percebeu que aqueles homens largaram os seus empregos e não voltaram, que a cidade esteve cinco meses a ser controlada pelo exército. “Quanto mais mais investigava, menos acreditava na sorte incrível que estava a ter por ninguém ainda ter escrito sobre esta greve. Sentia-me como se tivesse encontrado ouro.”
O livro que gostávamos de ler
Ouro ou não, já atingiu um patamar a que poucos chegam. É lido por multidões, tem três livros adaptados ao cinema (“Mystic River”, “Vista pela Última Vez” e, em pós-produção, “Shutter Island”, realizado por Martin Scorsese) mas não fabrica “best-sellers”.
Quando se senta a escrever a única coisa em que pensa é: vou contar uma boa história e vamos ver o que acontece. “Se começarmos a pensar em outras coisas, acabamos por escrever porcarias. Temos que tentar escrever a história da melhor maneira que soubermos. Temos que tentar escrever o livro que gostávamos de ler e tentar fazê-lo com um certo nível estético, que não tem nada a ver com a pessoa que está no aeroporto a ler. Estamos loucos se pensamos que vamos escrever para esse leitor. Porque nem sabemos qual é o gosto dele. E se começarmos a escrever a olhar para os nossos sucessos passados, isso é uma das formas de ficarmos artisticamente impotentes.”
Não só Lehane, quando se senta à secretária, tenta contar a história o melhor que sabe, como se percebe que também tem o dom de contar histórias ao vivo. Quando subiu ao palco da Book Expo America num domingo e à hora do pequeno-almoço, depois de já lá terem estado Ted Turner (a falar da sua autobiografia “Call Me Ted”) e Azar Nafisi (autora de “Ler Lolita em Teerão” a falar do seu livro de memórias “Things I’ve Been Silent About”, publicado esta semana nos EUA), a tarefa era difícil. Mas graças ao seu sentido de humor arrebatou a plateia de bibliotecários, editores e jornalistas.
De repente, em cima daquele palco, desatou a fazer piadas atrás de piadas. A meter-se com o que os outros convidados tinham dito. Contou que é escritor graças aos bibliotecários.
“Tenho ido falar a bibliotecas no fim do mundo sem receber dinheiro e por vezes a pagar as despesas de viagem porque quando tinha seis anos a minha mãe levou-me a uma biblioteca. A minha família veio da Irlanda para os EUA e em minha casa não havia livros. Eu era o mais novo de cinco filhos e as freiras tinham dito à minha mãe que eu gostava de ler e o primeiro livro que li -Ted Turner pode lembrar-se da sua primeira experiência sexual e eu também me recordo… – foi ‘Smokey The Bear’. Era uma sequela por isso tive que ir ler os volumes anteriores.
Desde esse dia fiquei viciado e fui a essa biblioteca todos os dias. Viajei por vários continentes através dos livros, vivi dentro dos corpos de pessoas de todos os géneros sempre através dos livros.” Não é daquelas pessoas que sempre quiseram escrever um livro. Tornou-se escritor porque era terrível em tudo o resto. “Eu não era bom em nada. Não tinha um ‘hobby’, não tinha habilidades especiais, mas havia uma coisa de que eu era capaz: contar histórias razoavelmente. Fui ter com os meus pais e disse-lhes que queria ir tirar um curso de escrita criativa. Eles não sabiam o que era isso e continuam ser saber -mas perguntaram-me se eu era capaz de arranjar uma bolsa de estudo. Arranjei e a minha mãe perguntou-me se com o curso eu ia poder dar aulas.
‘Claro!’. Acabei o curso e arranjei logo um emprego… numa loja de bebidas.” Anos mais tarde, já estava em Nova Iorque a ter conversas com o seu editor e o seu agente (são os mesmos desde o início) e disse-lhes que nunca iria escrever um “best-seller” porque não era a ideia de carreira que tinha.
Olharam para ele como os pais quando lhes disse que queria ir tirar o curso de escrita criativa.
Quando entregou o manuscrito de “Mystic River” ao editor este telefonou-lhe: “Este livro é surpreendente, vai ser um ‘best-seller’”. Dennis disse-lhe: “Não sei o que é andaste a fumar…”. “Porquê?”, perguntou-lhe o editor. “Porque a minha mulher diz que eu lhe devia colocar como título ‘Aqui todos são uns falhados’. E é verdade, neste livro todos falham. Não é um livro feliz. Mas tornou-se um ‘best-seller’. Porquê? Porque os editores acreditaram nele e quiseram espalhar essa mensagem de amor pelo livro. Tal como antigamente quando ainda não se falava dos livros como produtos.” E a plateia suspirou a lembrar os outros tempos.
(Artigo publicado no suplemento Ípsilon, do jornal PÚBLICO, no dia 2 de Janeiro de 2009)



