Será que os aguento?

22 August 2010 - 20:30 2 comentários

Na minha ausência pelos Brasis, eles e elas resolveram correr para contar. Bem que me chegaram umas mensagens estranhas ao iPhone com pedidos de ajuda para encontrar aplicações. Está tudo explicado: no blogue http://correrparacontar.blogspot.com/ É pá, qualquer dia também estou por aí a fazer alongamentos porque, dizem eles, elas também correm.

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Porque hoje é domingo (e o Paulo me lembrou)

22 August 2010 - 20:13 Nenhum comentário

Paulo, era só preguiça. Tenho uma desculpa: a minha cabeça está em Paraty. E ontem esteve na Rocinha. E, e, e….

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Christopher Hitchens sabe como vai morrer

21 August 2010 - 17:54 2 comentários

O jornalista e escritor Christopher Hitchens soube em Junho, quando estava a lançar o seu livro de memórias, “Hitch-22″, que tinha um cancro no esófago. Nas últimas semanas deu várias entrevistas onde mostra como está a lidar com a evidência da mortalidade Por Isabel Coutinho

“Como é que está?”, pergunta-lhe o escritor e jornalista Jeffrey Goldberg, da revista The Atlantic, no vídeo que se pode ver no site desta publicação norte-americana desde o dia 6 de Agosto (dia em que Tony Judt morreu), filmado na sua casa em Washington. “Como estou? Estou a morrer. Bem, toda a gente está, mas em mim o processo está a acelerar-se. Estou à procura de maneiras de morrer como você”, responde o escritor e jornalista Christopher Hitchens, a cara inchada, o cabelo ralo por causa da quimioterapia. “Não sabe como vou morrer”, contrapõe Goldberg. “Infelizmente eu sei como é que vou.”

Christopher Hitchens, 61 anos, autor do livro Deus Não É Grande – Como a Religião Envenena Tudo (ed. Dom Quixote), tem um cancro no esófago que já tem metástases. O ensaísta anunciou no dia 30 de Junho que estava doente nas páginas da revista Vanity Fair, onde é colaborador, e disse que, por isso, não continuaria com a tournée de lançamento do livro Hitch-22: A Memoir, as suas memórias.

A 5 de Agosto, Hitchens foi ao programa de Anderson Cooper, na CNN, e disse que quando se fuma e se bebe como ele bebia, tornamo-nos sérios candidatos a ter um cancro. Em 1978, o pai do escritor, Eric Ernest Hitchens, que trabalhou na Marinha britânica e tinha 79 anos, morreu de ataque cardíaco pouco depois de lhe ter sido diagnosticado um cancro no esófago. A história repete-se.

Luta, qual luta?

Christopher Hitchens soube que estava doente na manhã seguinte ao lançamento do seu livro de memórias, quando se sentiu mal e foi levado para o hospital. Aí, os médicos disseram-lhe que a sua próxima paragem seria no oncologista. Na sua agenda para essa noite estava marcada uma ida ao Daily Show de Jon Stewart, seguida de uma sessão cujos bilhetes estavam completamente esgotados, em que ele ia conversar com o escritor Salman Rushdie sobre a obra que estava a lançar. Hitchens não faltou nem a um nem a outro, embora tenha vomitado entre os dois. Escreveu na Vanity Fair: “Eu tinha planos para a minha próxima década e sinto que trabalhei para o merecer. Não viverei o suficiente para ver os meus filhos casar? Para ver o World Trade Center erguer-se outra vez? Para ler – ou escrever – os obituários de vilões mais velhos como Henry Kissinger e Joseph Ratzinger?”

Nesta entrevista mais recente, a da revista The Atlantic, o jornalista Jeffrey Goldberg pede-lhe para dizer como se sente, argumentando que é útil para as pessoas. “Há dias maus, e dias péssimos. Nunca sei quando a exaustão vem da quimioterapia ou do tumor em si. Continuo a escrever, a ler e a falar. Mas há dias em que eu não conseguia sequer ler.” Depois, surge na sala o escritor britânico Martin Amis que, no seu livro A Viúva Grávida, tem uma personagem inspirada em Hitchens, garrafa de água na mão, e a conversa continua. “Sente-se insultado quando as pessoas dizem que rezam por si?”, volta à carga Goldberg. “Não, não, aceito-o desde que o façam para a minha recuperação. Mesmo que isso não mude nada.”

No blogue que mantém na Atlantic Jeffrey Goldberg respondeu às pessoas que lhe enviaram e-mails a dizer que as suas preces não eram para desejar a recuperação de Hitchens: “Posso dizer que ele não se importa, seja de que maneira for, com o que vocês pensam ou rezam, mas naquilo que me diz respeito e a toda a equipa da Atlantic deixem-me dizer-vos: “Vão-se foder.” Acredito que Deus me vai desculpar por esta.”

No artigo que escreveu para a Vanity Fair (Topic of Cancer) mostrava-se surpreendido por ser hábito ler nos obituários nos jornais que determinada pessoa morreu depois de uma longa batalha contra o cancro. Quando se trata de alguém com uma doença coronária ou com insuficiência renal nunca se diz que travou uma grande luta com a mortalidade. Hitchens, que tem três filhos, diz que ama a ideia de luta, mas informa-nos que, quando se está sentado num quarto com uma série de outros finalistas e alguém traz um saco transparente com veneno que é injectado nas nossas veias enquanto lemos ou não um livro, a imagem do guerreiro ou do revolucionário é a última coisa que nos ocorre.

“Sentimo-nos dominados pela passividade e impotência: dissolvemo-nos em impotência como um quadrado de açúcar se dissolve em água.”

Sem fatalismos

Em Março, Christopher Hitchens, que nasceu em Inglaterra em 1949 mas vive nos EUA desde os anos 80, esteve em Lisboa. Na altura, disse a Pedro Lomba, que o entrevistou para o PÚBLICO (ver P2 26/02/10), que preparava um livro sobre os Dez Mandamentos. Foi convidado de Inês Pedrosa, directora da Casa Fernando Pessoa, no Ciclo Livres Pensadores com uma conferência sobre A Urgência do Ateísmo. Era um regresso, tinha estado em Portugal em 1975 quando trabalhava como jornalista para a revista da esquerda britânica New Statesman e veio entrevistar Mário Soares e Jaime Gama.

Hitchens não está fatalista, não se resigna, mas ao mesmo tempo é realista. Sabe que as estatísticas mostram que as hipóteses que tem de sobreviver a este tipo de cancro são muito baixas. Diz que não é do tipo de ser à prova de lágrimas, mas a verdade é que ainda não chorou. Fica abalado quando pensa nos filhos, mas tenta ser o mais objectivo possível.

“É tempo de reconsiderar as suas posições sobre Deus?”, pergunta Goldberg. Christopher Hitchens diz que talvez seja demasiado cedo para lhe perguntar porque ainda não teve nenhum momento aterrador. Mas, para já, a resposta é: “Não.”

(artigo publicado no caderno P2 de dia 20 de Agosto de 2010)

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Alexandre O’Neill morreu há 24 anos

21 August 2010 - 17:37 Nenhum comentário

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- Meu amor? – Sim, diz. – Já disse.

20 August 2010 - 19:45 Nenhum comentário

Na canção que se ouve no disco “Troubadour” está o verso que coloquei em cima e que desapareceu da versão que Lula Pena canta neste vídeo.

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Uma na Bravo Outra na Ditadura

18 August 2010 - 21:18 Nenhum comentário

trailer do documentário “Uma na Bravo Outra na Ditadura” from Andre Valentim Almeida on Vimeo.

Uma na Bravo Outra na Ditadura – parte 1/2 from Andre Valentim Almeida on Vimeo.

Uma na Bravo Outra na Ditadura – parte 2/2 from Andre Valentim Almeida on Vimeo.

Este é o documentário que faz o retrato da geração nascida em Portugal pela revolução de Abril. É um filme de André Valentim Almeida. E não é que estão lá todos? Adoro, adoro, adoro.

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Onde eu queria estar amanhã…

18 August 2010 - 21:03 Nenhum comentário

O MELHOR DO INFERNO from kiti tassis on Vimeo.

Era no Rio de Janeiro, na Livraria Travessa, de Ipanema, às 19h, a dar um abraço à Christiane Tassis que está a lançar o seu novo romance “O melhor do inferno” (ed. Língua Geral). Sim ela é a moça do “Sobre a Neblina”, por cá editado pela Quetzal.

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O mestre Wilson das Neves tem novo disco

18 August 2010 - 20:41 Nenhum comentário

“Pra gente fazer mais um samba” é o novo disco do mestre Wilson das Neves. Muitas das letras são de Paulo César Pinheiro que acaba de publicar na Leya Brasil as Histórias de suas canções.
Ah como eu adoro este homem! Vamos lá botar o pé no chão, rapaziada!

“Pra gente fazer mais um samba
Precisa, meu bem, quase nada
Às vezes um vago desejo
De alguma paixão já passada
De alguém que passou na calçada”

Tá legal? Oh se está. Venha lá o Óscar.

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Está lindo! Vou começar a ler.

18 August 2010 - 20:04 Nenhum comentário

” O único final feliz para uma história de amor é um acidente sem sobreviventes” João Paulo Cuenca no seu novo romance publicado pela Companhia das Letras.

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Rhonda Byrne (de O Segredo) está de volta com The Power

18 August 2010 - 12:47 1 comentário

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O Kindle não está enterrado

18 August 2010 - 10:58 2 comentários

Ciberescritas
Isabel.Coutinho@publico.pt

Agora que faz 15 anos, a maior livraria online do mundo, a Amazon.com, revela que o Kindle, o seu aparelho para ler e-books, é desde 2008 o artigo que mais vende. A revelação foi feita no início desta semana pela empresa e as novidades não ficam por aqui. O Kindle é também o objecto que as pessoas mais desejam na loja online norte-americana, o que mais oferecem e aquele que classificam mais vezes com cinco estrelas. A empresa de Jeff Bezos continua a não divulgar quantas unidades já vendeu, mas o fundador da Amazon veio dizer que a recente redução do preço do Kindle (de 259 dólares para 189) fez com que as vendas triplicassem.

Outra das novidades: as vendas dos livros impressos de capa dura foram ultrapassadas naquela loja online pelos livros em formato digital. “Os clientes da Amazon.com agora compram mais e-books para o Kindle do que livros impressos de capa dura o que é surpreendente quando se pensa que vendemos livros impressos de capa dura há 15 anos (desde 1995) e livros digitais para o Kindle há 33 meses”, afirmou Jeff Bezos. O CEO da Amazon disse também que a venda de livros impressos de capa dura continua a aumentar. Actualmente, a loja tem disponíveis mais de 630 mil e-books Kindle (510 mil custam menos de 10 dólares e outros estão em domínio público).

Voltemos aos números de vendas. Nos últimos três meses, por cada 100 livros de capa dura vendidos, venderam-se, na Amazon.com, 143 e-books. Se olharmos só para o último mês, a diferença é ainda maior: em 100 livros impressos de capa dura venderam-se 180 livros electrónicos (excluídos desta estatística estão e-books gratuitos que foram descarregados).

É importante lembrar que quem compra estes e-books na Amazon não os lê obrigatoriamente no Kindle, o aparelho da empresa que serve para ler livros electrónicos, jornais e revistas. Os e-books Kindle podem ser lidos, com a ajuda das aplicações que a Amazon tem lançado, noutros aparelhos: em PC, num qualquer computador da Apple, no iPod touch, no iPhone, no BlackBerry, em telemóveis com sistema Android e no iPad. O que estes números mostram é que a livraria Amazon.com ganhou com o lançamento do iPad, da Apple, em Abril passado. E parece não ter saído fragilizada. Está a vender mais e-books que podem ser lidos no iPad. E a contribuir para isso estará também o facto de a loja da Apple, a iBook, não conseguir competir nem com os preços nem com a oferta da Amazon.

Mike Shatzkin, da empresa Idea Logical, tem dito que, em dez anos, os livros impressos serão menos do que 25 por cento do total de livros vendidos. Ao jornal “New York Times” afirmou, sobre as vendas de e-books na Amazon: “Este dia era esperado, tinha que acontecer.” Nos primeiros seis meses de 2010, a Amazon vendeu três vezes mais e-books do que nos primeiros seis meses do ano passado. E o relatório da Associação dos Editores Norte-americanos mostra que as vendas de e-books nos EUA cresceram 207 por cento desde o início do ano até Maio. Recentemente, a editora Hachette anunciou que vendeu 1.14 milhões de e-books de James Patterson. 867.881 eram Kindle.
Conclusão: o Kindle não está morto nem enterrado.

Amazon.com
http://www.amazon.com

The Shatzkin Files
http://www.idealog.com/blog

(crónica publicada no suplemento ípsilon no dia 23 de Julho de 2010)

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É a vida

18 August 2010 - 0:05 Nenhum comentário

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“Se contasse, deixaria de ser segredo”

17 August 2010 - 18:14 2 comentários

(Foto de Walter Craveiro/FLIP)

 

Nas noites da Festa Literária Internacional de Paraty, Salman Rushdie dançou com o filho Milan, para quem escreveu o livro que está agora a promover. Os tempos da fatwa parecem ter ficado para trás. Por Isabel Coutinho, em Paraty

Quem viu Salman Rushdie e o filho Milan a dançar samba na festa dada pela sua editora brasileira, a Companhia das Letras, em Paraty, no Brasil, jamais o esquecerá.
Milan tem 11 anos e esteve com o pai na famosa Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), onde o escritor está a lançar mundialmente o seu novo livro, Luka e o Fogo da Vida. Se não fosse Milan, cujo segundo nome é Luka, este romance infanto-juvenil que chega a Portugal em Novembro (Dom Quixote), ao mesmo tempo que nos Estados Unidos, não existiria. Por isso, na noite em que Rushdie subiu ao palco da Tenda dos Autores para falar sobre si e sobre esta obra, chamou o filho para ir até junto dele e apresentou-o ao público, que deixava a sala a abarrotar.

O livro de Rushdie conta a história de um rapaz canhoto a quem parece muitas vezes que é o resto do mundo que funciona ao contrário, e não ele. Luka tem de salvar o pai e pela sua aventura passam ainda um urso e um cão que falam e um tapete voador.

Salman Rushdie contou na FLIP que sempre quis pôr dentro de um livro um tapete voador. “Foi um grande feito finalmente tê-lo conseguido. O meu filho Milan, para quem escrevi este livro, está a ler um livro fantástico de Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão, onde também existe um tapete voador.” Nos anos 90, Salman Rushdie escreveu um livro para o seu filho mais velho Harun e o Mar de Histórias (foi escrito quando era perseguido), e quando Milan o leu perguntou ao pai: “Onde está o meu livro?” “E havia duas respostas para esta pergunta”, disse o autor, sexta-feira, ao fim da tarde, em Paraty. “Uma era dizer-lhe que a vida é injusta, que é a resposta verdadeira, mas não é a resposta boa. A outra era escrever um livro para ele.” Luka e o Fogo da Vida é a resposta à pergunta de Milan.

Depois de ter escrito Harun e o Mar de Histórias, Rushdie percebeu que os livros infanto-juvenis que ele adorava também tinham sido escritos para crianças específicas. E deu o exemplo de Alice, de Lewis Carroll, e de Peter Pan, de J. M. Barrie. Livros que se tornaram clássicos universais e que foram inicialmente escritos para uma criança em particular.

Sempre com humor

O Salman Rushdie que andou estes dias por Paraty, onde está pela segunda vez, a passear de barco e a conversar com os colegas como a escritora iraniana Azar Nafisi (Ler Lolita em Teerão), que também está a participar na Festa e a inteirar-se da situação de Sakineh Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento sob a acusação de adultério é um homem que parece descontraído, com sentido de humor apurado e inteligência brilhante. “Não tenho interesse nenhum em pessoas que têm respostas. Prefiro aquelas que têm perguntas. E quando as pessoas acham que sabem as respostas todas eu desligo”, disse o homem que, entre 1989 e 1998, viveu escondido por causa de uma fatwa decretada pelo ayatollah Khomeini (1900-1989), que ofereceu uma recompensa pela sua morte depois de Rushdie ter escrito Os Versículos Satânicos.

Não sabemos se pelas ruas empedradas de Paraty, Salman Rushdie andou a evitar dar de caras com o crítico e professor universitário Terry Eagleton, que o acusou de apoiar a política neoconservadora da “guerra ao terrorismo” dos governos britânico e norte-americano. Mas na sessão moderada pelo jornalista Silio Boccanera, aludiu à polémica entre os dois: “Ele anda por aí? Vou dizer-lhe que não tem coragem de me enfrentar com a sua mentira.” E lembrou que durante anos foi presidente do PEN americano, onde se opôs “às aventuras de [George W.] Bush e [Dick] Cheney”, considerando “ofensivo, desonesto e desonroso” ser acusado pelo “senhor Eagleton” de fazer parte da agenda neoconservadora do ex-Presidente norte-americano e do seu vice.

Várias vezes as respostas bem humoradas de Rushdie fizeram com que o público desatasse às gargalhadas. Mesmo quando se falava de perseguição e morte. O jornalista brasileiro perguntou-lhe se os tempos em que viveu escondido da civilização e protegido, que foram certamente desagradáveis, tinham feito com que ele mudasse e se havia coisas boas nesse período. “Essa é uma pergunta estranha porque, se eu responder que sim, vai parecer que estou a recomendar sentenças de morte às pessoas”, disse. “Aliás, se puderem, evitem sempre sentenças de morte por fanáticos…”, brincou, acrescentando que nunca gostou da palavra esconderijo porque quem sabe o que é a segurança máxima sabe que é o oposto de estar invisível: “É muito, muito visível, porque estamos constantemente rodeados de guardas, como se estivéssemos a dizer que o alvo está ali.”

Um escritor lento

Agora, que já passaram duas décadas desde o começo da fatwa, Rushdie está a escrever sobre o assunto. “É um livro de não-ficção, porque o que é interessante no que aconteceu é que realmente aconteceu. Se se inventasse isto para colocar numa obra de ficção, as pessoas iriam dizer que se tratava de um mau romance. É verdadeiro e, por isso, é preciso contá-lo como uma história de não-ficção.” Rushdie admitiu ainda que, apesar de ter adiado o momento, sempre soube que mais cedo ou mais tarde iria escrever sobre aquilo que passou. E há quatro, cinco meses chegou a esse ponto em que disse às pessoas que iria contar aquela história. E começou a pesquisar, a ler os diários que escreveu na época, a ler o que outros escreveram, a reunir informação, e começou a escrever.

Já tem 60 a 70 páginas. “Eu sou lento, não sou um escritor muito rápido. Pergunte-me outra vez sobre este livro daqui a dois anos”, disse o autor de 63 anos, que hoje vive em Nova Iorque. Rushdie gosta das mulheres nova-iorquinas, das ruas e dos sons. “Sou uma pessoa que gosta de viver em cidades grandes. A minha opinião sobre o campo é que é um lugar para as vacas.” Risos.

Lá para o fim da conversa, Silio Boccanera quis que o autor de Os Filhos da Meia-Noite falasse sobre o futuro do livro, um dos temas desta FLIP. Rushdie fez-lhe a vontade, dizendo que o filho tem um iPad que ele inveja: “Acho interessante que Milan me diga que fica enjoado a ler um livro impresso numa viagem de carro ou de comboio, mas consegue fazê-lo sem enjoos num iPad.” E depois acrescentou que todos os editores estão em pânico com o digital “estão sempre assustadíssimos”, lembrando que o livro impresso é uma tecnologia muito sofisticada, que se pode deixar cair sem perder os dados e que não bloqueia quando se está a ler. “Uma vez deixei cair uma garrafa de Coca-Cola no meu Apple e ficou sem conserto. Tive que o deitar fora e comprar outro. Se a mesma garrafa de Coca-Cola caísse em cima de um livro de papel, as informações essenciais continuariam ali, talvez com as páginas um pouco amachucadas, nada de mais.”

No final, alguém do público atirou uma pergunta: “Você é um péssimo dançarino e não é muito bonito. Qual é o segredo para andar sempre com mulheres bonitas?” E Salman Rushdie claro que respondeu: “Se lhe contasse, deixaria de ser segredo…”

(reportagem publicada no suplemento P2 do jornal PÚBLICO de 10 de Agosto de 2010)

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Um documentário que é uma espécie de Big Brother da vida de Saramago

16 August 2010 - 13:50 1 comentário

Foto de Walter Craveiro/FLIP

Na 8ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty, que hoje termina no Brasil e por onde passaram entre outros, Salman Rushdie, Isabel Allende e os cartoonistas Robert Crumb e Gilbert Shelton, a noite de sábado foi de homenagem a José Saramago. Com a apresentação mundial de excertos do documentário José & Pilar e uma conversa com o realizador português Miguel Gonçalves Mendes. Por Isabel Coutinho, em Paraty

“Não queria estar na pele da Pilar quando eu desaparecer, mas de toda a maneira vamos ficar perto um do outro – as minhas cinzas vão ficar debaixo da pedra do jardim”, ouve-se José Saramago dizer no vídeo que o realizador português Miguel Gonçalves Mendes preparou para apresentar na 8.ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), onde o escritor foi homenageado na noite de sábado.

“Medo? Não. A morte para mim é a diferença entre estar e já não estar.” José Saramago, que morreu no dia 18 de Junho, vira-se para a câmara e diz: “Pilar, encontramo-nos noutro sítio”, e apaga uma luz.

Os 40 minutos apresentados mundialmente pela primeira vez na FLIP, com cenas que estão incluídas no documentário José & Pilar e outras que não estarão, fazem crer que Miguel Gonçalves Mendes quis fazer “um filme sobre a intimidade de duas pessoas extraordinárias”, como notou o jornalista e escritor brasileiro Arthur Dapieve, que conduziu a conversa com o realizador que, durante três anos, filmou a vida do Prémio Nobel. Miguel Gonçalves Mendes falou sobre as últimas polémicas à volta de Saramago em Portugal (as discussões por causa do romance Caim e a ausência do presidente Cavaco Silva no funeral).

A estreia nos cinemas portugueses está marcada para Novembro, mas haverá uma apresentação a 14 de Outubro no DocLisboa.

A Tenda dos Autores, um dos locais onde se realizam as sessões com os escritores e convidados da FLIP, estava cheia. Ao longo do dia, Flávio Moura, o director de programação da FLIP, tinha avisado que ainda podiam ser comprados bilhetes para aquela sessão que não estava esgotada e à noite, agradeceu ao público por este ter enchido o auditório.

“Pilar, vou para casa”, diz Saramago. E vai. Em seguida vê-se o escritor sentado à sua secretária na casa de Lanzarote, em Espanha, depois de ter colocado um disco de música clássica no leitor de CD. Olha para o computador, encosta-se para trás na cadeira como se estivesse a pensar, como se fosse difícil o processo de escrita. O espectador ainda não viu o ecrã. Ele pega no rato, clica: “Este para aqui e este para ali.”

Uma vida inteira nos livros

De repente, o público que assiste desata às gargalhadas. Saramago não está a escrever um novo livro, José está a jogar paciências no computador.

“Está ganho. As cartas fazem uma espécie de dança” e são boas para afugentar o Alzheimer, diz. Pouco depois, Pilar aparece, tem que ligar alguma coisa na secretária onde o escritor está sentado, e ele, com ar de garoto maroto, dá-lhe uma palmada no rabo. Também os vemos de mão dada, à noite, sentados no sofá a ver televisão.

Assistimos à rotina do dia-a-dia, ao casamento, à entrega das páginas que José Saramago vai escrevendo a Pilar, e a seguir, vemos a espanhola a traduzi-los para castelhano. A determinada altura as vozes dos dois sobrepõem-se, lêem os mesmos excertos dos livros em línguas diferentes (português e castelhano).

Momentos interessantes são também aqueles que se passam no Brasil, quando o autor de Memorial do Convento esteve aqui a lançar A Viagem do Elefante. Há a conferência de imprensa em que José se queixa que os jornalistas lhe fazem sempre as mesmas perguntas onde quer que vá. Os leitores pedem-lhe autógrafos, mas também beijos. Um rapaz quer que ele desenhe um hipopótamo (era o lançamento de um livro que conta a história de um elefante, gargalhada geral ) e mais tarde, durante a conversa que se seguiu na FLIP, Miguel Gonçalves Mendes explicou que este rapaz pedia a pessoas famosas que desenhassem hipopótamos e colocava os desenhos num site. Saramago não desenhou, não tinha tempo, a fila para os autógrafos era enorme.
Uma jovem aproxima-se do escritor e repete várias vezes algo que o escritor não percebe (“Saramago, eu te amo”) acabando por lhe segredar ao ouvido: “Você sabe que eu te amo, né?”. O escritor português desmancha-se a rir. As pessoas na Tenda dos Autores também.

Ao contrário de escritores que viveram a boémia, “a minha vida não tem qualquer espécie de interesse”, diz Saramago. “Onde eu ponho as coisas que são verdadeiramente importantes é nos meus livros”, afirma, lembrando que “o tempo aperta” e que quando o tempo aperta há um sentimento de urgência.

Nos excertos de José & Pilar, assistimos ao momento em que dentro de um avião, algures entre a Europa e a cidade brasileira de São Paulo, Saramago se vira para a mulher e lhe diz: “Tive uma ideia sobre Caim.” Pilar chama a hospedeira e pede: “Por favor uma cerveja, uma cerveja. Estou a ter um ataque de pânico.” Bebe a cerveja de um trago. Saramago teve a ideia daquele que acabou por ser o seu último livro.

Miguel Gonçalves Mendes, que é também o realizador do documentário Autografai, sobre Mário Cesariny, que recebeu o Prémio de Melhor Documentário Português no DocLisboa 2004, tem mais de 230 horas filmadas.

Fez uma primeira montagem do filme com seis horas e agora tem uma versão final de duas horas.

“O que acabámos de ver”, explica o realizador, “não tem a ver com o filme. O documentário não tem uma única entrevista. No filme, Saramago não aparece como aqui, a falar para a câmara. É mesmo só o dia-a-dia.

Sem ser pejorativo, o filme é uma espécie de Big Brother da vida de José Saramago. Desde a ideia que ele teve para o livro A Viagem do Elefante [2008] até ao final, acompanhando uma fase muito má da vida dele, que foi quando adoeceu.”

Meirelles e Almodóvar

Mas, assegura, o filme, apesar de triste, é também muito optimista – passa por lá a “vontade de viver e de amar”, sem “rodriguinhos”. “Para dizer a verdade, não tenho o filme que queria. Precisava de mais seis meses de edição e não tenho dinheiro para o fazer. Já estou a montar há um ano e meio e, portanto, é uma loucura continuar a trabalhar” nele, diz Miguel Mendes.

José & Pilar é co-produzido pela produtora 02, do realizador brasileiro Fernando Meirelles, e pela produtora de Pedro Almodóvar, El Deseo.

Apesar disso, Mendes, que também é um dos produtores do filme, disse na FLIP que o filme foi muito caro, pois teve três anos de filmagens com viagens por várias partes do mundo.

“Estou com dívidas de 100 mil euros e a reformular o empréstimo da minha casa. É assim, é a vida. Vivendo e aprendendo.” O realizador teve a ideia para este projecto depois de ter filmado José Saramago para um documentário que fez sobre a relação de Portugal com a Galiza. Quando o autor de O Evangelho Segundo Jesus Cristo viu o documentário premiado de Miguel Mendes sobre o poeta e pintor surrealista Mário Cesariny, disse-lhe: “Ah, Miguel, eu aceito que faças o documentário sobre mim. Tenho é medo de não ser tão interessante como o Cesariny.” José & Pilar termina com José Saramago a declarar a Pilar del Río que se tivesse morrido aos 63 anos, antes de a conhecer, teria morrido muito mais velho do que quando chegasse a sua hora. O único Prémio Nobel da Literatura português esperava “morrer lúcido e de olhos abertos”. Pelo menos gostaria que fosse assim. E foi.

(reportagem publicada no jornal PÚBLICO no dia 9 de Agosto de 2010)

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Porque hoje é domingo

14 August 2010 - 23:48 1 comentário

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